Acho que a gente se empolgou um pouco quando decidiu que líderes precisavam entender de saúde mental. Começamos falando sobre acolhimento e escuta e, em algum momento, os gestores começaram a querer identificar sinais, interpretar comportamentos e perceber questões emocionais que poderiam estar impactando o trabalho dos colaboradores.
Isso não é ruim só porque um líder não é psicólogo, psicanalista e não tem conhecimento clínico. Essa discussão já foi bastante explorada e acho que todo mundo entendeu que líder não é psicoterapeuta ou analista. É ruim também pelo que pode acontecer quando alguém que tem poder sobre a sua vida profissional começa também a tentar entender o que se passa emocionalmente com você.
Sofrimento psíquico é sempre singular. Duas pessoas submetidas às mesmas condições de trabalho podem viver aquilo de maneiras completamente diferentes porque cada uma chega ali com sua história, seus conflitos, seus recursos e sua forma de se relacionar com o mundo. Isso não significa, porém, que a origem daquilo que aparece em cada uma delas seja necessariamente individual. E aí a coisa começa a complicar.
Alguém não está dando conta, se desengaja, muda de comportamento e logo aparecem explicações sobre aquela pessoa. Ela não lida bem com pressão, é pouco resiliente, tem dificuldade de adaptação. Aquilo que começou como uma percepção de que algo não vai bem aos poucos ganha contornos de uma leitura sobre quem é aquele colaborador.
