Na semana passada, assisti a uma campanha publicitária que não consegui esquecer. Uma enorme bola de cabelos atravessava as ruas de Nova York. Chamava-se Tumblehair. Reunia, numa única imagem, os fios que uma cidade inteira perde sem perceber. Um no travesseiro. Outro preso à roupa. Alguns no ralo depois do banho. Bilhões, quando somados.
Não foi a estranheza que ficou comigo. Foi a ideia. Transformar pequenas perdas numa presença impossível de ignorar.
Fiquei pensando que as cidades também perdem assim. Uma ausência de cada vez. O que uma cidade perde enquanto acredita que está apenas mudando?
Naquela noite choveu. O cheiro da primeira chuva subiu da terra. Dormi em paz.
Ao abrir os olhos, não lembro a que horas foi, percebi que havia alguma coisa no meio da avenida. De longe, pensei que fosse uma escultura. Urban Art talvez, como a bola de cabelos humanos.
Quando me aproximei, vi que era um novelo. Não de fios. De cidade.
Raízes enroscavam-se em bancos de praça. Galhos atravessavam janelas. Trilhos desapareciam sob trepadeiras. Um portão de ferro prendia-se a um pedaço de calçada junto com terra, pedras, tubulações, placas de rua enma sei mais quantos objetos urbanos. Tudo enredado.
Tive a impressão de que cada perda tivesse encontrado outra para não permanecer sozinha.
Os carros diminuíam a velocidade. As pessoas fotografavam. Os agentes de trânsito desviavam o trânsito.
Enquanto eu observava, o novelo cresceu. Quase imperceptivelmente.
