"O diabólico é aquilo que separa e, ao separar, subverte" (D. C. Schindler, Freedom from Reality: The Diabolical Character of Modern Liberty)
Estamos num daqueles momentos em que a Política, com P maiúsculo, a arte de ordenar a vida em comum, é engolida pela política, com p minúsculo. Em lugar da ordem coletiva a que todos esses fenômenos deveriam servir, sobram eleições, estratégias, paixões partidárias, disputas por cargos. É natural que seja assim, e que, nesse contexto, todo argumento corra o risco imediato de ser lido como munição eleitoral, e toda categoria filosófica, antes que se perceba, como arma de campanha. E, no entanto, é justamente quando a política partidária absorve inteiramente nosso horizonte que se torna mais urgente, posto que espinhoso, recuperar a pergunta pelos fundamentos.
Num livro recente dedicado à crise da liberdade moderna, o filósofo americano D.C. Schindler recupera uma distinção que nos coloca nesse caminho: a oposição entre a ordem simbólica e a ordem diabólica. Embora apresentada de uma perspectiva católica, o autor não nos oferece uma contraposição meramente religiosa, muito menos uma metáfora moralizante. Trata-se, em vez disso, da formulação de duas maneiras radicalmente distintas de compreender a própria possibilidade da convivência humana.
Toda ordem política digna desse nome é, antes de tudo, simbólica.
