Roberto Beijato Junior* & Fernando Holiday**
Nos últimos anos, uma obra passou a circular nos currículos de cursos de graduação e pós-graduação em ciências sociais, Direito e administração no Brasil como se fosse um tratado científico inquestionável: O pacto da branquitude, de Cida Bento (2022). O livro é tratado por parte da comunidade acadêmica como evidência definitiva de um suposto acordo tácito entre pessoas brancas para perpetuar privilégios. Basta, porém, uma leitura atenta para perceber que se trata de um ensaio de cunho memorialístico e militante, sem metodologia científica minimamente reconhecível, alçado à condição de dogma por afinidade ideológica, não por rigor.
A tese central da obra, o chamado "pacto narcísico da branquitude", nasce da generalização de supostas e não provadas experiências pessoais da autora e de seus familiares em processos seletivos, sem qualquer levantamento estatístico, amostragem representativa ou grupo de comparação. Para sustentar essa generalização, Cida recorre a conceitos psicanalíticos emprestados de René Kaës e Pierre Benghozi, aplicando ao corpo social categorias clínicas pensadas originalmente para vínculos familiares e conjugais.
