Na última sexta-feira, num almoço, meu amigo Eduardo Moreira me disse uma frase que não saiu mais da minha cabeça. Conversávamos sobre muitos assuntos, inclusive sobre uma coisa que escrevi aqui há pouco tempo, quando ele soltou, com a naturalidade de quem já pensou muito sobre o assunto: não se deve guardar rancor na geladeira.
Fiquei com aquilo. Porque a imagem é perfeita. Rancor guardado na geladeira é o rancor que a gente conserva. Mantém frio, intacto, protegido do tempo, para poder servir depois, sempre que a memória bater à porta. A gente acha que está guardando para usar contra o outro. Mas o outro seguiu a vida. Quem abre a geladeira todo dia, e sente o cheiro, é a gente.
Sei disso porque levei anos com uma dessas na minha.
No começo da minha trajetória empresarial, eu tocava obras em dois estados ao mesmo tempo. As do Pará eram maiores e mais complexas que as do Maranhão, e resolvi conduzi-las pessoalmente, deixando as daqui sob a responsabilidade de alguém em quem eu depositava confiança total. Confiei sem conferir. Deleguei sem acompanhar. Estava a um estado de distância, absorvido pela frente maior, e tirei o olho da frente que ficou para trás. Quando percebi, o estrago já estava feito. Foi um golpe duro, daqueles que não atingem só o bolso, mas o nome, a reputação, a confiança de quem trabalhava comigo. Levei anos para me reerguer daquilo. E, por muito tempo, carreguei um rancor profundo.
Guardei aquele rancor na geladeira.
