O endividamento está corroendo a renda das famílias brasileiras. Não por acaso, o país atingiu dois marcos preocupantes: por um lado, mais de 83 milhões de pessoas estão negativadas, segundo o Mapa da Inadimplência do Serasa; por outro, o Banco Central informou que a inadimplência média nas operações de crédito subiu para 4,7%, o maior patamar da série histórica iniciada em 2011. Os números chamam ainda mais atenção porque foram divulgados na esteira de sucessivos programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola. Em matéria de endividamento, o Brasil tornou-se especialista em apagar incêndios, mas continua distribuindo fósforos.
O problema não é a renegociação de dívidas. Para milhões de brasileiros, ela representa alívio imediato, um respiro diante de uma situação financeira já insustentável. O equívoco está em tratá-la como solução para um fenômeno extremamente complexo. Quando uma política pública foca apenas no sintoma, ignorando as causas estruturais, limita-se a enxugar gelo. Os dados evidenciam que, apesar das sucessivas iniciativas de renegociação lançadas desde 2023, a curva do endividamento continua em patamares alarmantes.
A expansão desenfreada do acesso ao crédito, muitas vezes desacompanhada de uma análise responsável da capacidade financeira do consumidor, somada à escassez de políticas efetivas de educação financeira, é terreno fértil para o endividamento recorrente.
