Duas décadas após a sanção da Lei Maria da Penha, o Brasil ainda enfrenta o desafio de conter a violência de gênero e os altos índices de feminicídio. Para especialistas e operadores do Direito, a repressão e a punição criminal do agressor são fundamentais, mas insuficientes de forma isolada.
O fim do ciclo de violência exige a construção de caminhos estruturais para que a vítima consiga, de fato, se reerguer e não retorne ao ambiente abusivo.
Em entrevista à CNN Brasil, Juliana Gentil Tocunduva, promotora de Justiça do MPSP (Ministério Público de São Paulo), alerta que a violência doméstica raramente começa com uma agressão física grave. Para ela, o feminicídio costuma ser o capítulo final de um processo de controle e isolamento que vai escalonando ao longo do tempo
As relações abusivas começam de uma maneira muito sutil. Muitas vezes essa violência é confundida com benquerer, com ciúme, com amor.
Juliana Gentil Tocunduva, promotora de Justiça do MPSP
A promotora pontua que proibições disfarçadas e o monitoramento excessivo já são violações sérias, e resume o limite de uma relação saudável: “Tudo aquilo que não te traz conforto é violento”.
Essa escalada invisível fez parte da rotina da delegada Amanda Souza, sobrevivente de violência vicária, quando o agressor atinge os filhos para causar sofrimento extremo à mulher.
Ela dividiu a vida com o marido por 20 anos sob constante violência psicológica, sem nunca ter sofrido agressão física.
