Existe uma narrativa que ronda o mercado de que o adoecimento mental no trabalho aumentou porque as pessoas estão mais frágeis. Muito se fala sobre a baixa tolerância à frustração da geração Z, frequentemente apontada como a geração que não aguenta pressão, não aceita hierarquia e abandona empregos diante do primeiro desconforto.
É fácil entender de onde vem essa associação. O crescimento da preocupação com a saúde mental nas empresas coincidiu com a entrada massiva dessa geração no mercado de trabalho. Mas correlação não é causalidade. Engana-se quem pensa que o adoecimento está vinculado a um perfil específico e, mais ainda, que ele é consequência das características de uma geração.
As causas do sofrimento psíquico no trabalho são multifatoriais e atravessam pessoas de diferentes idades, setores, empresas, cargos e níveis hierárquicos. Se o fenômeno é tão disseminado, talvez ele diga menos sobre uma suposta fragilidade de quem trabalha e muito mais sobre as profundas transformações na maneira como o próprio trabalho passou a ser organizado.
E uma das primeiras mudanças está na relação que estabelecemos com a exigência. Pressão, metas e cobrança evidentemente não nasceram com o trabalho contemporâneo. O que parece ter mudado é seu caráter de excepcionalidade. O esforço extraordinário, que deveria ser convocado diante de uma situação extraordinária, foi incorporado ao funcionamento cotidiano e o que se tornou raro foram os momentos de tranquilidade.
