Caminhando pela rua com meu neto, encontro um tomateiro no canteiro de uma calçada. Maduros, viçosos, seus frutos não me surpreendem. Talvez tenham brotado de sementes deixadas ali por algum passarinho dias antes. Ou ainda, podem ser obra da moradora risonha de bochechas vermelhas que mora em frente e que observa a todos pela janela da sala. Uma das poucas casas que sobreviveram à fúria imobiliária que assola minha rua.
Ao longo do trajeto, outras estranhezas desviaram minha atenção. Uma orquídea amarrada com barbante florescendo no tronco de uma árvore e um pinheiro descartado passadas as festas de final de ano crescendo isolado no meio do canteiro: não parecem projetos institucionais de plantio, tampouco, obra da natureza. Sem assinatura, são gestos de alguém que os deixou ali para que o acaso cuidesse do restante.
Como urbanista, vício do ofício, acostumei-me a perguntar de onde veio cada árvore.
Por esta razão, entendi que a prefeitura também tem uma espécie de genealogia de plantios. Chega de uniforme, boné, bando de pessoas com roçadeiras ligadas. Mede distâncias, consulta listas de espécies, segue normas. Planta porque a cidade precisa funcionar com método, planejamento e continuidade expondo que a linhagem institucional é transmitida por procedimentos. E isso é o que importa para a prefeitura. Os plantadores anônimos seguem outra tradição. Não recebem ordens nem assinam projetos.
