Houve um tempo em que falar sobre cibercrime era quase repetitivo, já que as notícias mudavam pouco. Vazamentos de dados, ataques de ransomware, golpes bancários e invasões a empresas compunham um cenário relativamente conhecido. Claro, o que estava em risco era enorme, mas existia uma sensação de que era possível desenhar um perímetro de defesa. Mas essa lógica começou a mudar.
Os ataques continuam acontecendo, mas deixaram de seguir um roteiro previsível. A transformação digital conectou praticamente tudo à internet. Carros, hospitais, sistemas industriais, dispositivos domésticos, plataformas de inteligência artificial e até mecanismos criados justamente para aumentar a segurança passaram a fazer parte da superfície de ataque. O resultado é um cenário em que não basta perguntar quem será a próxima vítima. A pergunta correta passou a ser o que pode virar uma vítima. Essa mudança ajuda a explicar por que alguns dos episódios mais recentes parecem saídos de um roteiro de ficção.
Em março deste ano, um ataque cibernético atingiu a Intoxalock, empresa responsável por dispositivos de bafômetro conectados ao sistema de ignição de veículos nos Estados Unidos. O equipamento é utilizado por motoristas obrigados judicialmente a comprovar que não consumiram álcool antes de dirigir. Após o incidente, a empresa perdeu temporariamente a capacidade de calibrar os aparelhos, etapa obrigatória para seu funcionamento. O efeito foi curioso e, ao mesmo tempo, preocupante.
