Quando eu era universitário, morei numa casa que abrigava mais de trinta estudantes vindos do interior. Ficava ali, na Rua São Pantaleão. Era uma casa independente, dirigida por uma diretoria eleita. Fui presidente da Casa do Estudante Universitário do Maranhão por dois mandatos.
O ambiente daquela “república” era sadio, havia regras de conduta e punições para aqueles que infringiam o regulamento, inclusive expulsão, nos casos de faltas mais graves. As discussões eram habituais, mas sem qualquer violência. Discutíamos música, política, governos e, com cautela, fazíamos comentários sobre a ditadura que vigorava no país. Ouvíamos a rádio Tirana, quase às escondidas, para saber o que estava havendo pelo Brasil, que não sabíamos por causa da censura.
Dentre os variados tipos que tínhamos na casa, havia um estudante de Comunicação, vindo de Pedreiras, chamado Edmilson Costa, que cultivava uma cabeleira volumosa, redonda, penteada com um pente especial, de madeira, com quatro longas pontas. Não chegava a ser um penteado; bastava dar umas estocadas e a cabeleira estava pronta.
O que destacava Edmilson naquele ambiente eram suas ideias esquerdistas, na linha marxista-leninista. Às vezes, ele fazia discursos pela manhã, na hora do café. Foi ele que me deu a notícia da queda de Allende, amargurado. Era um sonhador, poeta como seu conterrâneo João do Vale, chegou a São Luís nas asas do vento leste disposto a vencer os desafios da vida. E venceu.
