Enquanto o governo e boa parte da imprensa se ocupam com a suposta ameaça de uma interferência estrangeira destinada a favorecer a candidatura da direita nas eleições brasileiras, o que se observa concretamente dentro do país é uma crescente interferência de autoridades e instituições para, no mínimo, blindar a candidatura governista.
Nos últimos dias, por exemplo, assistimos a um episódio que sugere uma tentativa de, com um novo sorteio, retirar das mãos do diligente ministro André Mendonça investigações envolvendo o filho do presidente Lula. O caso lembra aquele amigo secreto de fim de ano em que alguém tira um nome que não queria e, em vez de aceitar o resultado, devolve o papel ao saco para tentar novamente.
Como se não bastasse, foram noticiadas suspeitas graves de que informações sigilosas de investigações da Polícia Federal, potencialmente comprometedoras para o governo, teriam sido repassadas ao Palácio do Planalto sem o conhecimento de Mendonça.
No campo político, lideranças do Centrão passaram a demonstrar resistência em se aproximar de Flávio Bolsonaro, temendo represálias, especialmente em razão do processo relatado por Flávio Dino sobre as emendas parlamentares.
É possível discutir isoladamente o acerto ou o erro jurídico de cada um desses episódios. Mas é difícil ignorar que, vistos em conjunto, desenham um cenário politicamente favorável ao governo e restritivo ao espaço de atuação da oposição na campanha eleitoral.
