Por Jennifer Ann Thomas
O fóssil de uma cobra de cerca de 42 centímetros, que viveu 80 milhões de anos atrás no interior de São Paulo, está reaquecendo um debate evolutivo que a paleontologia trava há mais de um século sobre o ambiente em que surgiram as primeiras serpentes: no mar, no subsolo ou na superfície da Terra? Batizada de Tametara mirim, a espécie apresentava uma anatomia endocraniana e um ouvido interno compatíveis com a vida subterrânea, segundo um estudo que foi apoiado pela Fapesp e publicado na última edição da revista Nature, uma das mais importantes da ciência mundial.
Para dimensionar o quanto essa anatomia era peculiar, os pesquisadores aplicaram a mesma análise ao fóssil da espécie argentina Dinilysia patagonica, que viveu na mesma época da Tametara e é a única outra de grupo troncal (pertencente a uma linhagem extinta situada fora do grupo que reúne todas as serpentes atuais, mas evolutivamente próxima dele) com caixa craniana bem preservada e dados de tomografia disponíveis publicamente. Os moldes do espaço interno do crânio das duas espécies se mostraram bastante diferentes entre si, com a Dinilysia apresentando uma anatomia compatível com um modo de vida não adaptado à vida subterrânea (fossorial) e, provavelmente, terrestre.
O fóssil da Tametara foi descoberto em 2020 por William Nava e Giovanna Paixão, do Museu de Paleontologia de Marília, em uma pedreira na região de Presidente Prudente.
