Tenho a impressão de que toda avó deveria ser obrigada a ter um quintal. Não por causa das plantas, embora elas quase sempre estivessem lá. Mas porque um quintal é uma espécie de laboratório onde a vida faz experiências sem avisar. Já escrevi outras vezes sobre quintal.
O da minha avó tinha duas figuras centrais: uma galinha e um papagaio.
A galinha era dessas que levavam a existência a sério. Acordava cedo, ciscava o dia inteiro, investigava cada centímetro de terra como quem procurasse petróleo. O papagaio, ao contrário, parecia ter descoberto o segredo da vida: deixar os outros trabalharem enquanto ele fazia comentários do alto do poleiro.
Ele era um especialista em interromper o silêncio.
Bastava alguém atravessar o quintal para que resolvesse emitir sua opinião, normalmente, uma repetição de alguma frase que ouvira dentro de casa. Era curioso: não compreendia uma única palavra do que dizia, mas dizia com uma convicção que faria inveja a muita gente.
A galinha fingia não se importar.
Continuava ciscando, com aquela elegância meio apressada de quem vive ocupada. Mas bastava o papagaio receber um pedaço de banana ou uma goiaba mais madura para ela abandonar imediatamente todos os seus princípios e correr em sua direção, convencida de que havia uma profunda injustiça sendo cometida naquele quintal.
O papagaio, naturalmente, fazia questão de comer devagar. Não por fome. Por vaidade.
