Quem percorre os bastidores do setor elétrico nacional desde a virada do milênio carrega na memória uma lição elementar: a infraestrutura energética do país possui uma tolerância nula para a volatilidade das conveniências políticas. Estávamos lá quando o trauma do racionamento de 2001, o pedagógico “Apagão”, impôs uma reestruturação profunda do mercado, ancorada na premissa de que a complexidade de manter o país ligado exigia instâncias de decisão estritamente técnicas, independentes e blindadas de humores partidários.
Foi sob essa arquitetura de Estado que se consolidaram o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), organismos que funcionam como os guardiões da estabilidade física e financeira de um dos maiores ecossistemas de energia do mundo. O movimento recente, contudo, sugere um preocupante esquecimento das nossas lições históricas mais caras.
O que assistimos hoje é a substituição do rigor técnico pela lógica da composição política, com o loteamento de cargos altamente estratégicos por meio de apadrinhamentos partidários. Ao entregar cadeiras cruciais da operação e da governança a perfis alheios às dinâmicas reais do setor, revivem-se os mesmos fantasmas que nos custaram caro na década passada. É impossível não lembrar o rastro de desarranjo estrutural e as faturas bilionárias herdadas pela Medida Provisória 579, quando o voluntarismo tentou revogar as leis da economia e da engenharia.
