Existe um tipo de eleitor que se acha acima da eleição. Repete que são todos iguais, que voto não muda nada, que política não é para ele. Acredita estar demonstrando lucidez. Está apenas transferindo, de graça, o poder de decisão dele para quem tem paciência de acordar cedo num domingo.
Não existe abstenção neutra. Quem fica em casa não anula a eleição, apenas aumenta o peso relativo do voto de todo mundo que apareceu. O resultado sai do mesmo jeito, só que montado sem ele.
Três desculpas que não sobrevivem a dois minutos de análise
A primeira é que são todos iguais. Não são. Em 4 de outubro estarão em disputa candidatos com projetos opostos sobre carga tributária, segurança pública, previdência e papel do Estado na economia. Quem afirma que não há diferença normalmente não olhou. Achar que todos são ruins é uma opinião legítima. Achar que todos são idênticos é preguiça travestida de ceticismo.
A segunda é que um voto não muda nada. Em 2020, na cidade de Kaloré, no interior do Paraná, dois candidatos a prefeito terminaram a apuração com exatamente 1.186 votos cada. Ninguém venceu na urna. A prefeitura foi definida pelo artigo 110 do Código Eleitoral, que manda eleger o mais idoso em caso de empate. Nas municipais de 2016, seis cidades brasileiras elegeram prefeito por um único voto de diferença. Em qualquer uma delas, um único eleitor a mais poderia ter mudado a história. Inclusive um dos que ficaram no sofá.
A terceira é que política não é assunto dele. É.
