414 anos
São Luís, uma cidade que nasceu presépio, vive na primeira metade deste século o mesmo drama de outras capitais brasileiras que viraram refúgio de retirantes do campo desassistido, tiveram as periferias urbanas inchadas de carências e viram sendo levados à exaustão os seus equipamentos sociais.
Nem por isso, porém, a cidade perdeu seu encanto de cheiros e cores, de trabalho e afeto, de fartura de águas e do calor da hospitalidade.
O tempo nos mata
Na São Luís de 1966 - dois anos antes do AI-5, na fase menos virulenta da “Redentora” - não havia lombadas, nem assaltos, nem mafuás ou garagens de ônibus no aterro. Aliás, nem havia aterro.
São dessa época as crônicas de Lago Burnett, criando uma espécie de Leopold Bloom da terra - não a Dublin de Joyce, mas a São Luís de José Chagas. O retrato da vida “no outro lado da ponte”. A vida dos mais jovens que faziam a travessia da ponte a pé. Era a vantagem de ser jovem e não precisar de transporte para alcançar a praia.
Até hoje não tenho a menor dúvida dessa circunstância, até porque é sempre maravilhoso ser jovem em qualquer lugar e em qualquer situação...
Os velhos barcos sem leme estavam se aposentando e eu delirava com as vitórias desse mesmo Botafogo, enriquecido de Mané Garrincha. Mais importante: as meninas do Colégio Santa Teresa pareciam jovens Ingrid Bergmans em seus uniformes azul e branco, saias plissadas, que a versão de gala transformava em grenás.
