O Alienista, de Machado de Assis, não é um clássico por acaso. Ainda hoje, o conto parece caber à perfeição, tal qual uma camisa-se-força muito bem talhada, no cenário político nacional. No conto, como se sabe, o doutor Simão Bacamarte funda em Itaguaí a Casa Verde, asilo destinado a recolher os loucos da vila. Mas o critério de loucura do doutor era tão elástico que, aos poucos, quase toda a cidade acabou internada. Vizinhos denunciavam vizinhos, parentes denunciavam parentes, e a Casa Verde inchava como um balão prestes a estourar, até que, num lance de honestidade científica digno de nota, o próprio Bacamarte concluiu que o verdadeiro louco de Itaguaí era ele mesmo, e se internou.
Convém, porém, fazer justiça ao doutor Bacamarte: era um louco de boa índole. Cientista obcecado, movido por vaidade acadêmica e zelo classificatório, mas sem malícia - um homem que acreditava, sinceramente, estar servindo à ciência e à vila. Alexandre de Moraes, o Careca do Master, tem sim um que de Bacamarte - como alguns já observaram. Mas ele não é um louco gentil. Trata-se de um louco sombrio.
Sim, Alexandre de Moraes é um Bacamarte cruzado com o doutor Mabuse, o vilão criado por Fritz Lang - o hipnotizador que investiga, acusa, manipula processos e move os fios de todos ao seu redor, sempre um passo à frente, sempre imune às próprias regras que impõe aos outros. Bacamarte queria entender a loucura alheia. Mabuse queria dominá-la.
