Li, há alguns anos, um livro de Leonardo Boff que me deixou uma imagem que volta, de tempos em tempos, à memória.
Em A Águia e a Galinha, Boff recupera uma conhecida narrativa para refletir sobre a condição humana. Uma águia, criada entre galinhas, aprende a viver como elas. Cisca o chão, percorre o terreiro e, progressivamente, passa a compreender a si mesma a partir daquele universo limitado.
Tinha asas, mas não voava.
Não porque tivesse perdido a capacidade de voar, mas porque havia se acostumado ao chão.
Talvez resida aí uma das dimensões mais interessantes da metáfora: a capacidade de adaptação, tão necessária à existência, pode também produzir acomodação. Aquilo que se repete tende a adquirir aparência de normalidade; e aquilo que se normaliza deixa, muitas vezes, de ser submetido ao mesmo grau de questionamento.
Voltei a pensar nessa narrativa diante dos debates que atualmente envolvem o Supremo Tribunal Federal.
Evidentemente, instituições não são indivíduos, e metáforas não substituem categorias jurídicas. O exame de uma Corte constitucional exige instrumentos próprios da teoria constitucional, da ciência política e da teoria das instituições. Ainda assim, determinadas imagens podem funcionar como pontos de partida para perguntas que o vocabulário estritamente normativo nem sempre consegue formular com a mesma força.
Uma delas parece particularmente importante:
a que se pode acostumar o poder?
