Não, não se trata de uma releitura de Beckett. É que, acordando de um sono profundo, o Conselho Superior do Ministério Público Federal resolveu, finalmente, investigar o enlameado Paulo Gonet, o PGX - procurador-geral do Xandaquistão. O Conselho decidiu apurar as mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, nas quais Gonet aparece como interlocutor íntimo, e deveras afetuoso, de um homem hoje sob a mira das investigações que o próprio PGX deveria supervisionar. Pois o companheiro de uísque de Vorcaro terá de prestar esclarecimentos. Um subprocurador foi designado e o teatro burocrático se põe em marcha. A ver...
Já discorri alhures sobre a fisionomia burocrática de Gonet na sabatina que o reconduziu ao cargo: o rosto liso, impenetrável, de quem nada sente porque nada precisa sentir. A banalidade do mal em pessoa, de terno, com voz pausada, e loas a uma República à beira do abismo. Pois bem: agora sabemos que, por trás dessa máscara de neutralidade episcopal, havia também lugar para a camaradagem informal, para a vídeo-chamada, para o “já estou com saudades de você” trocado com um banqueiro que geria bilhões de depositantes hoje enxugando prejuízo. O burocrata anódino que se recusa a sentir pela vítima institucional encontra, ao que parece, reservas de calor humano para o amigo certo, na hora certa.
Pode parecer hipocrisia. Mas, da perspectiva da oligarquia cleptocrata que hoje subjuga o país, trata-se de coerência.
