Por Ricardo Victor Cohen,
O uso de medicações para obesidade compradas pela internet ou importadas com procedência duvidosa e aplicadas por conta própria virou um problema de saúde pública. O alerta não é sobre uma determinada faixa etária. Vale para o adulto que quer perder quatro quilos antes de uma festa; para o adolescente com questões inerentes à idade e, no extremo mais grave, para a criança obesa que recebe uma injeção sem nenhuma indicação. O que une esses casos não é idade nem necessidade: é a ausência do que é necessário em qualquer tratamento seguro de saúde: diagnóstico, prescrição, procedência e acompanhamento.
Vale começar pelo entendimento do que esses remédios de fato são. Os análogos de GLP-1, como a semaglutida e a liraglutida, imitam um dos hormônios que o próprio corpo produz no intestino para estimular a produção de insulina. A tirzepatida, mais recente, simula o GLP-1 e também o GIP (Peptídeo Insulinotrópico Dependente de Glicose), que tem função semelhante. Todas essas substâncias sintéticas reduzem o apetite, aumentam a saciedade e ajudam a controlar a ingestão alimentar. São tratamentos legítimos para uma doença crônica, a obesidade, que tem base biológica - não é uma questão de força de vontade.
Tratar a obesidade como fraqueza de caráter ou falta vaidade é parte do que nos trouxe até aqui. O estigma empurra as pessoas para soluções rápidas e escondidas, no contrabando ou pela internet, em vez de recorrerem ao cuidado de um profissional de saúde.
