Já nem cito as imagens dos temporais que inundam, desculpem o trocadilho, as telas dos jornais. A cena repete-se desde quando eu era criança: árvores caídas, postes inclinados, semáforos apagados e moradores perguntando quando a energia voltará. Em dezembro de 2025, cinco dias sem luz retiraram R$ 2,1 bilhões do faturamento do comércio e dos serviços, segundo a Fecomercio SP. Passada a emergência, reaparece a solução conhecida: enterrar a fiação.
Nas redes sociais, a promessa costuma vir pronta e linda! De um lado, calçadas estreitas, postes e cabos enrolados no ar. Do outro, cidades estrangeiras sob um céu desimpedido, com árvores inteiras e calçadas livres. A conclusão parece evidente: bastaria enterrar os fios.
Não é tão simples. Sob calçadas e ruas já passam redes de água, esgoto, drenagem, gás, energia e telecomunicações. Faltam levantamentos, plantas atualizadas e coordenação entre concessionárias e intervenções públicas. Sem isso, a cidade corre o risco de transferir a desordem do alto para o subsolo. Enterrada, a desordem deixa de ser vista, não de existir.
São Paulo ensaiou uma solução com a Lei Municipal nº 14.023, aprovada em 2005 e regulamentada no ano seguinte. A norma previa converter redes aéreas em até 250 quilômetros lineares de vias por ano. Em 2015, a portaria do programa foi suspensa pela Justiça diante do conflito com a competência federal sobre energia e telecomunicações.
