Na sexta-feira, no seu centésimo dia no cargo, Kevin Warsh subiu ao púlpito de Jackson Hole e admitiu que o Federal Reserve talvez precise subir os juros. A manchete correu o mundo. Quem parou nela perdeu o essencial. Warsh não anunciou uma decisão. Anunciou uma doutrina, e é ela que explica o que vem pela frente.
Há uma ironia que ninguém em Washington conseguiu ignorar. Warsh foi a escolha de um presidente que passou anos exigindo juros mais baixos. Cem dias depois, o escolhido está no palco dizendo que “a responsabilidade por 65 meses de inflação elevada e persistente recai diretamente sobre o banco central, e é ali que ela pertence”. Não culpou a pandemia, a guerra, as tarifas nem o antecessor. Assumiu o registro inteiro e fixou o padrão: “Precisamos ter confiança de que a inflação subjacente está caminhando para o nosso objetivo, com clareza e velocidade suficientes. Caso contrário, temos trabalho a fazer”.
O que mudou
A “medida” do Fed não é um número, é um método. Warsh enterrou o forward guidance, a prática nascida na crise de 2008 pela qual o banco central anuncia com antecedência o caminho provável dos juros. Ao se comprometer com decisões futuras, o Fed amarra as próprias mãos e cria o que ele chamou de salão de espelhos: o mercado olha para o Fed, o Fed olha para o mercado, e os dois ficam cegos para a realidade. Foi assim, diz Warsh, que o Fed demorou a reagir à inflação de 2021. Estava preso à própria promessa.
