A Justiça chinesa acaba de condenar o artista Gao Zhen, de 70 anos, a três anos de prisão por esculturas que satirizavam Mao Tsé-tung - obras de quase duas décadas, agora enquadradas retroativamente numa lei de 2021 sobre “honra de heróis e mártires”. Um homem apodrece na cadeia por retratar um tirano de joelhos. É bom lembrar desse episódio porque ele revela, com precisão, o que exatamente um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) disse admirar há pouco mais de um ano.
Durante o julgamento do Marco Civil da Internet, Gilmar Mendes afirmou com a desfaçatez que lhe é característica: “Nós todos somos admiradores do regime chinês, né, do Xi Jinping”. Ninguém no plenário se levantou. Ninguém se constrangeu. Barroso apenas corrigiu a atribuição da citação sobre a irrelevância da cor dos gatos na perseguição aos ratos - era de Deng Xiaoping, não de Xi -, como quem ajusta uma nota de rodapé, sem jamais questionar o cerne do comentário.
E, fora do plenário, o silêncio foi igualmente ensurdecedor: nenhuma manchete escandalosa, nenhum especialista convocado para explicar ao país os riscos de um ministro da mais alta corte elogiar publicamente uma ditadura. Tudo reportado com grande naturalidade, a mesma naturalidade com que se noticia que ministros do STF fazem articulação política, ameaçam parlamentares para que não apoiem esse ou aquele candidato, julgam adversários políticos e críticos em processos judiciais fraudulentos.
