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À maneira de Borges ou não
Se eu vivesse outra vez, trataria de ganhar mais dinheiro para não precisar jamais dele. Cuidaria de ficar longe do Brasil e das pessoas, principalmente daquelas que se devotam ao ódio e à vulgaridade, às trevas e à inveja, e riem de hábito como as hienas, e eventualmente mordem como os cães pouco afetuosos.
Tentaria gostar de praias ensolaradas ao contrário de preferí-las frias e sem banhistas, como nos filmes suecos de Ingmar Bergman.
Perderia tempo jogando baralho, tivesse ou não trunfos na mão, para ter a certeza de que nada é mais urgente do que a falta de urgência.
Procuraria amar uma quantidade maior de pessoas do que seria capaz, a fim de restar cansado para ouvir o fôlego das plantas sobre relvas e rastrear o hálito das flores.
Procuraria esconder a tíbia vontade de ficar só entre cadeiras antigas, memórias que se esticam como elastômeros e velhos chinelos egressos dos pés dos espíritos.
Dispensaria todos os veículos para andar somente a pé e urdiria meu ócio até que eu próprio não me reconhecesse.
Felizmente, não terei outra vida.
Os sábios não morrem
“Não importa quão devagar você vá, desde que não pare de caminhar”.
