Depois que escrevi sobre aquele menino e sua bicicleta velha, sem assento, dentre outras colaborações e inquietações, alguém me fez uma pergunta que ficou comigo:, Mas não há um risco em romantizar isso? Em ensinar que devemos nos contentar com pouco?
A pergunta é justa.
Voltei, então, àquela calçada do Centro de São Luís. Pelo menos em pensamento. E percebi que talvez eu não tivesse escrito sobre contentamento. Muito menos sobre conformismo.
Aquele menino merecia um assento. Merecia uma bicicleta melhor. Merecia todas as oportunidades que a vida pudesse lhe oferecer.
E, se pudesse escolher, provavelmente escolheria uma bicicleta nova.
A serenidade dele diante do que tinha não significa que devesse permanecer com aquilo para sempre.
Talvez esteja justamente aí a diferença que pode não ter ficado clara da primeira vez.
Reconhecer o essencial não é desistir do melhor.
Há uma distância enorme entre ser grato pelo que se tem e acreditar que só se merece aquilo que se tem.
Podemos desejar mais sem transformar o que falta na medida da nossa felicidade.
Podemos querer uma casa melhor, crescer profissionalmente, viajar, estudar, comprar coisas que desejamos. Há dignidade também na ambição quando ela nasce da vontade de construir, de avançar, de oferecer uma vida melhor aos nossos.
O problema talvez comece quando o “mais” deixa de ser caminho e passa a ser condição.
Quando só conseguimos ser felizes depois da próxima conquista.
