Na tragédia grega, o desfecho fatal nunca é obra do acaso: é o resultado de uma cadeia de decisões, omissões e traços de caráter, a arrogância do excesso (a hybris), a hamartia do erro que parecia pequeno, que se acumulam até que o público, tarde demais, reconheça o padrão. O herói trágico raramente é vilão, é, quase sempre, alguém cercado por outros personagens que falham em cumprir o papel que lhes cabia no enredo. Se cada um tivesse agido a tempo, não haveria tragédia, mas também não haveria a lição que ela deixa para quem assiste. É essa a chave que proponho para ler o que aconteceu com a menina que a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul denominou de Lívia, para proteger seu nome real.
Não pretendo, com essa alegoria, apagar a dor concreta de uma família de Naviraí (MS) nem transformar uma adolescente real em personagem de ficção. Pretendo o oposto: mostrar que sua morte não foi um evento isolado e imprevisível, mas o ponto de convergência de falhas que já vinham sendo anunciadas, em outros casos, com outras vítimas, e que continuarão a se repetir enquanto os mesmos erros de encenação não forem corrigidos. O problema é que corrigir às pressas, cedendo ao impulso de reescrever o final sem revisar o roteiro, é o caminho mais curto para uma nova tragédia, ainda que disfarçada de solução.
