André Burger*
Em março de 2002, poucos meses antes de ser eleito presidente da República, Lula escreveu que eram “inacreditáveis os extraordinários lucros dos bancos no nosso país”. Oito dias depois, voltou ao tema, referindo-se à “lucratividade absurda dos bancos” brasileiros. A crítica fazia parte da narrativa econômica com que o PT chegava à sua quarta disputa presidencial: juros elevados, rentismo e um sistema financeiro beneficiado pela política econômica de Fernando Henrique Cardoso.
Ricardo Berzoini, então deputado federal e posteriormente presidente nacional do PT, seguia a mesma linha. Comentando o lucro dos bancos em 2001, escreveu que “o lucro recorde dos bancos destoa da realidade da economia nacional” e atribuiu ao governo FHC a defesa dos interesses de um setor privilegiado. Não havia muita ambiguidade: os bancos ganhavam muito e a responsabilidade, segundo o discurso petista, era do modelo econômico vigente.
Então Lula ganhou a eleição. Quatro anos depois, já candidato à reeleição, seu discurso seria curiosamente diferente. Em julho de 2006, declarou: “Banqueiro não tinha por que estar contra o governo, porque os bancos ganharam dinheiro”. Lula acrescentou que preferia bancos lucrativos a ter de socorrê-los com um programa como o Proer. Entre a “lucratividade absurda” de 2002 e o reconhecimento de que “os bancos ganharam dinheiro” em 2006, há uma mudança além da retórica. Os números do Banco Itaú ajudam a contar essa história.
