“Por que tu não curtes o momento em vez de ficar filmando?”, disse um amigo, com o olhar de fiscal de um pai que impede o filho de pegar doces na geladeira. Guardei a frase como quem guarda uma concha no bolso: cheia de areia molhada, mas difícil de largar.
Gosto de filmar. Filmo a mim, filmo a minha família, filmo os instantes que, se não registrados, parecem dissolver-se nos escombros do esquecimento. Talvez seja compulsão, talvez seja apenas desconfiança na memória, mas, se não eternizar aquele momento numa filmagem, daqui a cinco, sete, dez anos, já terá apagado rostos, gestos, trejeitos, lugares, sensações, centelhas de pequenas felicidades.
Ao rever um vídeo antigo, sinto a ressurreição da harmonia dos farelos de um biscoito de polvilho espatifado no chão. Quando, mais tarde, outro amigo repetiu a mesma indagação, comecei a rascunhar justificativas, quase como um advogado de mim mesmo. Calculei o tempo: um show, um pedal, um rolê de duas horas, e eu filmando dez, quinze, vinte minutos. Dezesseis por cento do todo. O resto? Ainda assim, percebo a vigilância alheia: há quem se atribua a função de fiscalizar o lazer dos outros, como se o viver tivesse que obedecer a um protocolo de autenticidade.
Não eram os álbuns de fotografia de outrora também pequenas encenações de memória? Hoje, a imagem move-se, dança, fala. Quantas vezes não foi exatamente um vídeo de alguém que me despertou para um lugar novo, uma experiência inesperada?
