Cheguei ao Centro de São Luís com a pressa habitual de quem tem hora marcada.
O compromisso me esperava alguns quarteirões adiante, e eu fazia mentalmente aquela conta inútil dos minutos: quanto faltava, quanto ainda precisava andar, quanto tempo perderia procurando onde estacionar. A cabeça já estava no lugar onde eu ainda não havia chegado.
Foi quando vi o menino.
Devia ter uns sete anos. Estava na calçada, inclinado sobre uma bicicleta velha. Velha mesmo. A pintura quase desaparecida, marcas de ferrugem, pneus gastos e, para completar, não havia assento.
Ele mexia em alguma coisa perto da corrente. Não sei se consertava ou apenas tentava fazê-la funcionar. Estava bastante concentrado naquela tarefa.
Diminuí o passo.
Havia algo de curioso ou de estranho naquela cena. Ou, quem sabe, o estranho estivesse em mim.
O menino não parecia aborrecido com a bicicleta. Não reclamava do que faltava, nem olhava para os lados procurando outra melhor. Não parecia constrangido diante de quem passava.
Ao contrário, havia certa serenidade no rosto dele. E, misturada à serenidade, uma alegria difícil de explicar.
Quando conseguiu ajeitar o que estava mexendo, levantou a bicicleta e a empurrou alguns passos. Olhou para ela como quem contempla uma conquista.
Eu, que estava atrasado, segurei um pouco o passo para tentar acompanhar a cena, o que não foi possível.
Ele, que não tinha assento na bicicleta, parecia não estar com pressa alguma.
