O pai estava na varanda quando o filho chegou.
Fim de tarde e, sobre a mesa, uma xícara de café pela metade. Dessas que a gente esquece e deixa enquanto olha o movimento da rua.
O filho sentou., Dia ruim?, Mais ou menos.
O pai não perguntou mais nada.
Ficaram ali. Um cachorro passou puxando o dono pela calçada. Do outro lado da rua, o buzinaço tomava conta da esquina, no frenesi da volta para casa. A vida, indiferente aos nossos dramas, seguia cumprindo suas obrigações, ditando seu próprio ritmo.
Depois de algum tempo, o filho falou:, Você já se decepcionou muito com as pessoas?
O pai sorriu., Já., Muito?, O suficiente para também descobrir que decepcionei algumas.
O filho não esperava por aquilo., Mas tem gente que machuca a gente sem motivo., Tem., E fica por isso mesmo?
O pai pegou a xícara, percebeu que o café estava frio e colocou-a novamente sobre a mesa, balançando a garrafa marrom que, pelo peso, já estava vazia., Nem sempre., Então?, Então você precisa escolher.
O filho franziu a testa., Escolher o quê?, O que merece você.
O pai contou que, durante muito tempo, teve dificuldade em deixar as coisas terminarem. Uma palavra atravessada podia acompanhá-lo por dias. Uma injustiça ocupava pensamentos inteiros, bagunçando seu dia e sua rotina. Se alguém fazia dele uma ideia errada, sentia necessidade de explicar, esclarecer, colocar os fatos em ordem., E hoje?, Hoje algumas pessoas podem continuar erradas sobre mim.
O filho riu.
