Jodie Foster dirigindo às pressas por uma estrada de terra, gritando coordenadas do céu em um walkie-talkie, como no filme de ficção científica Contato, de 1997. Salas de controle agitadas por uma cacofonia de “ampliem esse sinal”. Descobertas em tempo real. Era isso que eu imaginava quando meu orientador de doutorado me disse que eu iria fazer observações em um telescópio.
Corta para as 2h da manhã no topo de uma montanha em La Palma, em abril passado, a uma altitude que faz você esquecer que está nas tropicais Ilhas Canárias. Estava um frio de rachar, e eu tinha me vestido com roupas leves, adequadas para o arquipélago ensolarado. Quase deixei cair minha caneca ao tentar fechar a porta do telescópio contra o vento.
Café e comida me esperavam a 2 minutos de distância, no prédio de serviços. Na escuridão, o vento agarrou um pedaço solto de tecido e me deixou morrendo de susto. Eu caí em menos de 30 segundos. Ventos de 40 km/h não são incomuns no observatório; eu simplesmente estava totalmente despreparada.
Sentei na estrada, lamentando a perda de minha dignidade. E olhei para cima. Pela 1ª vez na vida, vi a Via Láctea diretamente. Ela pintava o céu, lembrando-me violentamente da minha insignificância. Nada na minha vida jamais se comparou a isso. Permiti me deleitar com aquela visão por 10 minutos. Então, o trabalho me chamou: eu precisava de café e não tinha dito ao meu colega qual estrela era a próxima na programação das observações.
