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Uma voz que diz tudo
“Nada de tubos, nada de bipes incessantes, nada de médicos desconhecidos entrando sem bater para checar aparelhos frios. Na teoria, a morte em casa é poética. Na prática, ela assusta tanto que preferimos terceirizá-la. Talvez porque a proximidade da morte estanque a poesia”.
A confissão é do médico J.J. Camargo, que vi fundo: “Quando o fim se aproxima, a racionalidade que defendíamos nos discursos desmorona. Diante do abismo da terminalidade, muitas famílias recuam e exigem a transferência para o hospital. Não por falta de amor, mas justamente pelo excesso dele - e pelo pânico de não saber o que fazer com esse amor quando ele já não pode salvar o nosso amado”.
A verdade é que ninguém nos ensina a conduzir o fim. Não entendemos que as prioridades de quem está partindo mudam; queremos alimentar quem já não tem fome, queremos que fale quem só precisa descansar. E a presença constante daquele corpo que vai se apagando lentamente gera uma ansiedade tão densa que as pessoas suspiram amiúde porque, de tão tensas, esquecem de respirar.
Uma voz que diz tudo...2
No hospital, paradoxalmente, tudo parece mais seguro. Há um alívio quase covarde na frieza das paredes brancas: afinal, lá as pessoas morrem o tempo todo.
A morte no hospital é institucionalizada, rotineira, “normal”.
