Uma pessoa sai de casa para trabalhar e, horas depois, “acorda” em outro bairro sem saber como chegou ao local. Outra encontra roupas no armário que não se lembra de ter comprado. Há quem seja chamado por nomes desconhecidos ou descubra mensagens enviadas sem qualquer recordação.
Embora pareçam cenas de suspense psicológico, esses episódios fazem parte do cotidiano de quem vive com o TDI (transtorno dissociativo de identidade), condição psiquiátrica em que duas ou mais identidades distintas se alternam no controle da mesma pessoa.
Descrito no DSM-5, manual de referência da psiquiatria, o transtorno envolve rupturas na memória, na percepção de si e no comportamento. As chamadas identidades alternativas,também conhecidas como alters, podem ter maneiras próprias de falar, agir, lembrar e interpretar o mundo.
“Algo imprescindível nesse quadro é a existência de uma lacuna de memória, onde uma identidade não lembra da outra“, afirma o psiquiatra Daniel Oliva, do Espaço Einstein de Bem-estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita.
Na prática clínica, porém, o transtorno raramente se parece com as versões exageradas popularizadas pelo cinema, como nos filmes “Fragmentado” (2016) e “Vidro” (2019), nos quais o personagem Kevin Wendell Crumb (interpretado por James McAvoy) manifesta 23 personalidades distintas, com algumas violentas. A forma mais comum é a não possessiva, em que as mudanças são discretas e internas.
