Ultimamente tenho percebido uma tendência nas empresas: a de confundir saúde mental com felicidade. Muitos líderes e RHs parecem acreditar que, se conseguirem fazer seus colaboradores felizes, terão cumprido seu papel de bons gestores e de boa empresa. Mas é justamente nessa premissa equivocada que moram grandes perigos.
O primeiro deles é a confusão entre os conceitos. Saúde mental e felicidade, por mais próximas que possam parecer num primeiro momento, não são sinônimos nem equivalentes. Ter saúde mental não significa ser feliz o tempo todo, sofrer pouco ou viver em permanente equilíbrio. Significa possuir recursos psíquicos, relacionais e sociais para atravessar conflitos e intempéries sem que eles desorganizem completamente a vida.
Mas, vejam bem, o sofrimento e a angústia fazem parte do viver. Lacan nos lembra de que a angústia não engana e a situa em relação ao desejo. Não se trata de romantizá-la, claro, mas de reconhecer que sua presença nem sempre é sinal de adoecimento. Muitas vezes, é justamente a angústia que dá notícia de um conflito, de um desejo ou de algo que já não pode continuar como estava. Para haver vida, desejo e movimento, é preciso suportar algum grau de desconforto, porque ele também revela que algo ainda pulsa.
A felicidade, por outro lado, não passa de um estado volátil. E já falei por aqui do quanto, para a psicanálise, e especialmente para Freud, a promessa de felicidade permanente é uma fantasia.
