Parar o carro no meio da tarde, em qualquer dia da semana, para tomar uma água de coco na praia, vendo as ondas de São Marcos embalarem o pôr do sol em São Luís, não é apenas descanso - é um convite à lucidez. Há pausas que não aliviam só o corpo; reposicionam o pensamento., Engraçado como a gente cresce achando que família é abrigo, disse a primeira, furando o coco com o canudo., E não é?, perguntou a outra, olhando o mar., É… mas às vezes também é peso.
A segunda demorou um pouco a responder:, Acho que são os dois. Tem dia que acolhe. Tem dia que aperta., Lá em casa, parece que todo mundo fala, mas ninguém escuta de verdade., Ou escuta só o que quer.
Houve um pequeno riso, desses que mais reconhecem do que divertem., E o pior, continuou a primeira, é que a gente vai ficando, vai se moldando. Quando vê, já nem sabe mais o que é escolha e o que é costume., Ou o que é cuidado… e o que é controle.
O diálogo poderia terminar ali, mas não terminou. Porque há palavras que, quando ditas, desorganizam o silêncio.
Minha água de coco, gelada e docinha, me permitiu permanecer ali por alguns minutos, não o suficiente para descobrir onde aquela conversa iria dar, mas o bastante para perceber que ela já dizia muito.
É nesse ponto que a vida encontra a literatura e, neste caso, lembrei imediatamente de Fiódor Dostoiévski.
