Obter do real uma visão muito simples, que acuse, em vez de ofuscar, o número e a complexidade dos detalhes., Louis Lavelle
Desde menino, acompanho futebol. Como tantos brasileiros, eu vibrava com seu momento decisivo: o gol, desfecho da tensão, alegria de uns e tristeza de outros. A depender da partida, guardo na memória alguns grandes lances, para mim especiais. Estive no histórico Maracanã, quando assisti ao milésimo gol de Pelé, seis dias após o meu aniversário de sete anos, e também, em 1976, ao lençol de Roberto Dinamite sobre o zagueiro botafoguense Osmar. Com o passar dos anos, outras descobertas integraram minha formação futebolística, não como especialista, mas como admirador: a estratégia dos treinadores, o modo como os times controlam a posse de bola e chegam aos lances decisivos.
Há alguns anos, durante as últimas competições nacionais e internacionais, comecei a me interessar, além do apito inicial, pelas histórias de perdas, acidentes, doenças, promessas, reencontros e recomeços. O jogo permanecia o mesmo desde menino. Meu olhar, entretanto, já não era. Talvez essa seja uma das transformações mais significativas da narrativa esportiva contemporânea: o gol deixou de ser apenas um acontecimento técnico para tornar-se o clímax de uma história com início muito antes da partida.
