Parece uma cena comum, dessas que passam diante dos olhos tantas vezes que acabam ficando invisíveis. Mas, por alguma razão, a cena nunca foi invisível pra mim: uma senhora que todas as manhãs atravessa a minha rua em direção à casa do vizinho, onde trabalha como doméstica. Nas primeiras vezes a via levando o filho pequeno pela mão ou carregando-o nos braços. À distância, eu notava aquele esforço. No inverso, ela abria o guarda-chuva com uma das mãos e, com a outra, sustentava o menino junto ao corpo, como quem protege da água um pequeno amuleto. Não era esforço. Era algo maior. Eu não sabia os nomes deles. Sabia apenas que havia algo de extraordinário naquela travessia. Talvez fosse a maneira com que ela conduzia o menino até o local de trabalho. Talvez o modo como ele a acompanhava em silêncio, observando as pessoas, as árvores, a calçada. Ou talvez fosse apenas aquela impressão insistente de que algumas histórias caminham ao nosso lado muito antes de se deixarem conhecer.Os anos passaram. Descobri há pouco tempo que ela se chama Laura. O menino, Daniel. E descobri, sobretudo, que a travessia não terminava na calçada da casa onde Laura trabalhava. Continuava nos livros.
Em 2023, aos nove anos de idade, Daniel leu noventa e cinco livros. Noventa e cinco. Não é exagero. Não é uma dessas histórias que crescem de boca em boca até se tornarem verossímeis.
