Nunca fui fanático por Copa do Mundo, mas sempre um torcedor engajado do Flamengo. Com meus 96 anos de vida, talvez eu seja o mais antigo torcedor do time, ou um deles.
No ano em que nasci, 1930, a FIFA (Federal Internacional de Futebol) realizou a primeira edição da Copa do Mundo de Futebol. Mas a Copa de que até hoje me recordo foi a de 1950. Eu viajava pela segunda vez de avião e ia, pela primeira vez, ao Rio de Janeiro para participar do Congresso Nacional da UNE (União Nacional dos Estudantes), como representante do Maranhão. O avião em que viajei era o Aero Commander 520, um avião de transporte leve do pós-Segunda Guerra, cujas aeronaves posteriormente foram transformadas em cargueiros leves por empresas de usados. Esse avião saía de São Luís, no Maranhão, às cinco horas da manhã. Pousava em Carolina, seguia para Porto Nacional e, em seguida, para Formosa, em Goiás. De lá, o avião partia rumo a Belo Horizonte e terminava a rota no Rio de Janeiro, aonde chegava às seis da tarde. Ao sobrevoarmos o Rio de Janeiro, o comandante comunicou de sua cabine que o Uruguai acabara de marcar o gol que o faria Campeão do Mundo, derrotando o Brasil. Eu não entendi bem o que aquele anúncio significava, pois estava exausto após um dia inteiro nesse avião, que não tinha pressurização e balançava muito. Com todos os passageiros enjoados e ainda vomitando, o cheiro na aeronave estava terrível. Nosso mal-estar físico se misturava com o do medo de quem viajava de avião pela primeira vez.
