O fugitivo Flávio Bolsonaro, candidato a Don Giovanni das elites mequetrefes do Brasil, e, sim, com milhões de votos também oriundos de eleitores pobres, prometeu entrevistas bombásticas que exporiam as entranhas da reeleição de Lula, que ele entende fraudulenta. Tivemos acesso a seu pensamento no “New York Times”, na “Folha” e no “Washington Post”, nos dias 5, 6 e 7, respectivamente. Não se pode aqui repetir exatamente o poeta latino Horácio sobre as montanhas terem parido um “ridículo rato”. Elas não o deram à luz. O roedor estava escondido nas suas fraldas e, delas, saiu serelepe para expor-se inteiramente. Eu sei: para um fujão como ele, dado o seu histórico de amarelar diante do enfrentamento a sério, a palavra “fralda” acaba por ter, vamos dizer, um caráter polissêmico.
O suposto “moderado”, cujas falsidade e malícia tantas vezes apontei, não compareceu aos encontros. Em seu lugar, falou aos jornalistas a ratazana golpista, cujas ideias têm como referência os delírios sempre incontidos do misógino Paulo Figueiredo, que se orgulha de ser um misto de Leporello com Rasputin dessa particularíssima aristocracia da política brasileira: a “Família Bolsonaro”, que não vai largar o osso. Convenham: por que o faria? Prestem atenção ao comportamento dos tais “mercados”, de seus porta-vozes e, sim, de parte considerável da análise política.
Os primeiros, os “mercáduz”, se entregaram à especulação porque o farsante perdeu a eleição. Embora Flávio tenha dito, sem ambiguidade possível, que manteria as políticas sociais, prometendo ainda mais gastos e novas desonerações, o que diminuiria a receita, os brutos resolveram fazer seu preço contra Lula porque tinham a certeza de que o candidato do PL mentia e poria em prática o seu “tesouraço” contra os pobres. Em suma, reagiram mal porque apostaram em quem sabiam ser uma fraude. Vale dizer: a sua principal qualificação para o cargo, a juízo dessa gente, era ser um mentiroso.
Os “porta-vozes” são os ditos “economistas” cujas opiniões são habitualmente ouvidas. Mostram-se independentes como um pescoço habituado à coleira. Pronunciam-se em favor do negócio que representam. Até aí, bem, nada de novo. Passei a prestar atenção aos raros especialistas ligados a universidades, que não operam no mercado, mesmo quando dizem o que não me parece bom. Logo, não lastimo as escolhas de quem pensa o que não penso. Ao contrário: sempre fico muito atento a estes em particular, desde que seu pensamento não seja a soldo. Mas quase nunca são chamados a se manifestar. Até golpistas têm direito a “outro lado” na gloriosa mídia brasileira, os economistas que estão fora de certo “consenso”, ah, aí não.
Quanto à “análise política”, dizer o quê? Como, em regra, errou quase tudo, nota-se até um certo rancor e ressentimento de quem acabou sendo exposto pela vitória de Lula.
GOLPISMO
Vamos ao que continua muito grave, ainda que o personagem seja miúdo. Nas três entrevistas, Flávio deixa cair a máscara do moderado e exercita, sem esforço de dissimulação, o golpismo: recusa o resultado das urnas e se apega a teorias conspiratórias. Ao “New York Times”, classificou a vitória de Lula como “matematicamente impossível” e, na sequência, fez o malabarismo clássico de um conspiracionista: “Eu tenho minhas suspeitas. Ninguém pode dizer com 100% de certeza que estou certo nem com 100% de certeza que estou errado”. Notem a arquitetura canhestra do “pensamento”: ele não afirma que houve fraude, o que lhe imporia a necessidade de prova. Limita-se a dizer que ninguém pode garantir que não houve. Passemos a um raciocínio semelhante: sabem qual é a maior evidência de que os ETs estão entre nós? Justamente a falta de evidência de que eles estão entre nós…
À “Folha”, a bobagem veio temperada pela covardia: “É por isso que não vou questionar isso na Justiça brasileira. Porque eu não tenho provas e nem terei, porque é proibido investigar esse assunto”. Releiam. O homem diz que não tem provas, que jamais as terá e que isso se deve ao fato de ser “proibido investigar”, e conclui que a ausência de provas atesta a eficácia do crime. Seria o círculo perfeito da paranoia, não fosse mera safadeza golpista. E as instituições? Ele as joga no lixo em bloco: “O Supremo está comprometido, o Tribunal Superior Eleitoral é dominado pelo governo, e Polícia Federal e Ministério Público Federal são aparelhados”, daí a recusa em legitimar um “processo ditatorial comandado pelo Alexandre de Moraes”.
Ora, se STF, TSE, PF e MPF são todos cúmplices, o que resta? A insurreição na rua, a pressão externa, a ruptura…
