O populismo é um velho personagem da história política. Muda de roupa, troca de discurso, adapta-se aos tempos, mas conserva sua essência: a promessa de representar diretamente o povo, dispensando intermediários e apresentando o líder como intérprete exclusivo da vontade popular. Quando essa prática se concentra nas campanhas eleitorais, ganha uma feição particular: o populismo eleitoreiro, modalidade que transforma a disputa pelo voto em um espetáculo de emoções, promessas e ilusões.
Não se trata de fenômeno exclusivo da direita ou da esquerda. O populismo atravessa fronteiras ideológicas, instala-se em diferentes regimes e encontra terreno fértil nas sociedades marcadas pela desigualdade, insegurança e descrença nas instituições. Seu combustível é a insatisfação. Sua linguagem é a simplificação. Seu instrumento é a emoção. Seu objetivo imediato é conquistar o poder.
A democracia pressupõe pluralismo, negociação, respeito às diferenças e reconhecimento das instituições. O populismo eleitoreiro prefere dividir o mundo entre bons e maus, amigos e inimigos, povo e elite. O adversário deixa de ser concorrente legítimo para se transformar em ameaça à nação. A eleição deixa de ser uma escolha entre projetos e passa a ser apresentada como batalha pela salvação do país.
O cientista político irlandês Cas Mudde, um dos mais famosos estudiosos contemporâneos do populismo, identifica no fenômeno a oposição entre um povo considerado puro e uma elite apresentada como corrupta. Ernesto Laclau, filósofo e teórico político argentino, um dos mais influentes pensadores do populismo no século XX e início do XXI, destaca a construção política de uma identidade popular capaz de reunir demandas dispersas. Francisco Weffort, um dos mais importantes cientistas políticos brasileiros, ao estudar a nossa experiência, examinou as relações entre liderança carismática, massas populares e estruturas do Estado. São interpretações distintas, mas ajudam a compreender a força de um fenômeno que resiste ao tempo.
No populismo eleitoreiro, a promessa ocupa o lugar do planejamento. O candidato oferece soluções instantâneas para problemas estruturais. Acena com prosperidade sem explicar os custos, promete segurança sem enfrentar as causas da violência, anuncia justiça social sem demonstrar como financiá-la. A complexidade é sacrificada no altar da popularidade.
A comunicação constitui peça central dessa engrenagem. O discurso é curto, repetitivo, emocional. As palavras procuram atingir mais o coração do que a cabeça. A indignação substitui o argumento. O slogan toma o lugar do programa. A imagem do candidato se sobrepõe à consistência das propostas.
As redes sociais ampliaram extraordinariamente esse mecanismo. Seus algoritmos favorecem conteúdos capazes de provocar reações intensas. A mensagem moderada encontra dificuldade para competir com a acusação explosiva. A mentira emocional pode circular mais depressa que a verdade documentada. E a inteligência artificial acrescenta novas possibilidades de manipulação, com imagens, vozes e acontecimentos fabricados.
Nesse ambiente, a política se converte em espetáculo permanente. O candidato precisa aparecer, provocar, emocionar, polemizar. Sua visibilidade passa a valer mais que sua competência. O número de seguidores transforma-se em credencial política. A popularidade digital, porém, não garante capacidade administrativa nem compromisso democrático.
