Rondó das sucessões (Última Hora, 6/1/1978)
Quando eu caminhava de menino para rapaz, na cidade da minha infância, Teresina, à beira do Parnaíba (esta referência é feita apenas para o gosto das evocações, o nome me lembra depressa o rio e suas canoas) fui bom aluno de História do Brasil. O professor, meu querido amigo Dídimo Castelo Branco, sabia disso. Entrava na sala, sentava- se na cátedra., “Seu Odylo, exponha o ponto”. E eu, envaidecido, expunha o ponto. Ao que, quando concluía, ele aditava., “Nada a corrigir ou acrescentar. Está encerrada a aula”. E saíamos todos felizes, pelo menos eu e ele, creio que os outros também: nunca tive queixas. Fiz mais: nas provas finais, convocado por ele para rever as dos colegas, distribui notas generosas, entre sete e nove, creio que cheguei mesmo a um nove e meio. Reservava-me, astuto e cauto, para o dez, que ele na certa me daria, ou, melhor dito, reservava o único dez para mim. Dídimo ensinou-me uma das lições da vida: pespegou-me seis, explicou que eu fora erudito e amplo, mas, demasiado ambicioso, só tivera tempo de responder brilhantíssimo pianíssimo à primeira questão, nas outras a pressão da hora me fizera sumário e incompleto. Era ainda generoso e compreensivo com o seis. Chorei (fui menino chorão e devo a isso poder hoje engolir as lágrimas), mas aprendi que a existência é feita de imprevisível, e, como a existência, a própria História.
São, a meu humilde ver (que nessas filosofias não escaramuço), duas coisas certas da História: primeiro, sua incerteza, e, segundo, a força das pequenas coisas nas grandes decisões.
Há, neste particular, um caso que me parece extremamente curioso. Suscitam-se diferentes explicações para a instauração da República na França de 1871. Mas a verdade é que dois episódios foram decisivos: a recusa, pelo Conde de Paris, do pavilhão tricolor, o que dividiu os monarquistas (Leão XIII, surpreso diante do irrealismo político, exclamou: “Mas por um guardanapo”! Apenas o guardanapo, a que se referia o grande italiano era a bandeira da flor-de-lis…). E houve a vitória, por um voto, na Assembleia Constituinte, da manhosa emenda que declarava a República.
