Por Marlon Reguelin*
Entre tantas ladeiras que esculpem o visual do Rio de Janeiro, uma em especial foi berço de um dos melhores sambas (com muito tempero) já compostos nesse país de musicalidade tão rica. Moraes Moreira, o lendário letrista e vocalista dos Novos Baianos, contava que, numa madrugada boêmia com o também lendário João Gilberto, viram uma bela mulata tomando o rumo dos seus afazeres, numa passada repleta de energia e disposição típica do brasileiro trabalhador. João, vendo a cena, declarou: “Olha lá, o Brasil descendo a ladeira”. A frase, despretensiosa mas carregada de poesia e verdade, foi a fagulha que acendeu o talento compositor de Moraes Moreira, que pouco depois escreveria um de seus maiores sucessos: Lá vem o Brasil Descendo a Ladeira.
Há poucas semanas, escrevi neste espaço que o Paraná vai bem, obrigado. Os números estavam lá: caixa robusto, investimento recorde, escolas no topo do Pisa, homicídios em queda. Prometi a mim mesmo não estragar o humor do leitor tão cedo. Mas o Brasil não colabora. Na segunda-feira 26, um dia depois de reeleger o descondenado Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato, o país acordou e foi direto ladeira abaixo, e não no compasso festivo da canção.
Para quem não acompanhou: o Ibovespa abriu em queda livre e, às 9h57, acionou o circuit breaker, a interrupção automática dos negócios, coisa que não se via desde março de 2020, quando o mundo descobria uma avassaladora pandemia.
