André Julião | Agência FAPESP - Como o maior mamífero de água doce do Brasil consegue sustentar quase meia tonelada de peso comendo somente plantas? O segredo está no intestino. Ao mapear a microbiota do peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis), pesquisadores identificaram uma via metabólica inédita na natureza: o animal possui bactérias capazes de digerir a epilactose, um carboidrato que a grande maioria dos microrganismos conhecidos não consegue processar.
A descoberta integra um estudo mais amplo, que revelou uma grande diversidade de microrganismos, genes e enzimas associados ao aproveitamento da dieta vegetal desses animais. Além da espécie de água doce, a pesquisa também investigou a microbiota intestinal do peixe-boi-marinho (Trichechus manatus). Os resultados, publicados nesta segunda-feira (02/11) na revista Nature Microbiology, trazem grande potencial para aplicações biotecnológicas.
“O peixe-boi-da-amazônia se alimenta de uma grande quantidade e diversidade de plantas. Essa dieta é sujeita ainda à sazonalidade, mudando da estação seca para a chuvosa. Por isso, ao longo de sua evolução, eles desenvolveram um arsenal de microrganismos intestinais capazes de digerir celulose com extrema eficiência, em torno de 80% a 86%”, conta Mario Murakami, diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (LNBr-CNPEM) e coordenador do estudo apoiado pela FAPESP.
