Na semana passada, enquanto navegava pelas águas escuras do Rio Negro, no Amazonas, aproveitei para ler Futuro Ancestral, de Ailton Krenak. Não poderia ter escolhido cenário mais apropriado. Cercada por uma paisagem que parece existir em outra dimensão do tempo, encontrei nas palavras do pensador indígena uma explicação desconcertante para a crise ambiental que enfrentamos.
Krenak diz que nossas crianças, aos sete ou oito anos, já estão sendo treinadas para ignorar o meio ambiente. Somos educados para manter distância da natureza, para desconfiar dela. Aprendemos desde cedo que a terra é suja, que não devemos colocar a mão no barro, que uma batata arrancada diretamente do chão precisa ser vista com suspeita. Melhor encontrá-la limpa, embalada e organizada na prateleira do supermercado.
É o que ele chama de uma educação sanitária. Uma educação que, em nome da higiene, da segurança e da civilização, vai progressivamente nos separando do mundo natural. Crescemos acreditando que a natureza é algo que está lá fora, distante de nós, e não aquilo de que somos parte.
Essa desconexão, argumenta Krenak, está na origem de uma visão de mundo que transforma o planeta em um gigantesco almoxarifado. Um depósito de recursos à disposição da humanidade, de onde podemos retirar tudo aquilo de que precisamos, como se as prateleiras fossem infinitas.
