O Brasil chega à corrida pelo Oscar após dois anos de campanhas bem-sucedidas: Ainda Estou Aqui conquistou uma estatueta, enquanto O Agente Secreto acumulou quatro indicações. Agora, Feito Pipa, do cearense Allan Deberton, tem a missão de conquistar uma indicação à premiação. Para isso, aposta em um trunfo: apresentar ao mundo as maravilhas do Brasil interiorano, longe dos grandes centros urbanos.
Estrelado por Yuri Gomes, de 12 anos, o longa acompanha Gugu, um menino que sonha em se tornar jogador de futebol e encara o preconceito por ser afeminado. Ao mesmo tempo, a avó Dilma (Teca Pereira) enfrenta o avanço do Alzheimer, que ameaça separá-la do neto, de quem cuidou durante toda a vida. O longa chegou aos cinemas nesta quinta-feira (5/11).
Em meio aos conflitos familiares, a paisagem de Quixadá, no sertão central do Ceará, assume papel de destaque. Enquanto Ainda Estou Aqui se passa no Rio de Janeiro e em São Paulo, O Agente Secreto tem como principal cenário o Recife da década de 1970. Feito Pipa, por sua vez, leva a narrativa para uma cidade distante dos cartões-postais mais conhecidos do país. É a oportunidade de mostrar ao mundo, e ao próprio Brasil, uma realidade familiar a milhões de pessoas que vivem longe das metrópoles.
Dos 5.569 municípios brasileiros, apenas 48 têm população superior a 500 mil habitantes. Ao ser rodado em uma cidade com cerca de 81 mil moradores, o filme mergulha no chamado Brasil profundo, expressão que ganhou popularidade nas redes sociais para designar culturas e modos de vida que escapam ao olhar das capitais, dos discursos oficiais e das imagens idealizadas pela mídia tradicional.
O escritor Itamar Vieira Junior, vencedor do Prêmio Jabuti de Romance Literário com Torto Arado, cuja história se passa no sertão baiano, descreveu a expressão: “O Brasil não é aquilo que passa na TV ou os lugares que são exaltados. São as vidas e as pessoas que ainda estão invisíveis. Todas elas têm uma potência de vida criativa, que podem explicar esse país”.
Apesar das casas humildes, cercadas por madeira, dos cômodos enxutos, das estradas de terra e das vestes simples, Deberton acerta ao retratar o sertão sem transformar a simplicidade em sinônimo de mazela social. Em vez de associá-la à miséria ou à falta de perspectivas, o filme revela a dignidade e a riqueza de uma realidade que muitas produções insistem em enquadrar apenas pela ótica da carência.
