(*) Felipe Vieira
Uma flecha matou um carroceiro em 2016. Dez anos depois, uma muleta encostou em um automóvel e quase provocou outra morte. Nos dois episódios, o mesmo motorista. Nos dois, vítimas indefesas. Nos dois, uma violência brutal por um motivo insignificante.
O caso de Denis Young Kim, de 43 anos, expõe uma questão revoltante: como o sistema penal brasileiro permite que alguém condenado por um homicídio tão brutal volte ao convívio social e, pouco mais de um ano depois, seja investigado por outra agressão que poderia ter terminado em morte?
Em setembro de 2016, no Bom Retiro, em São Paulo, Denis matou Aldemir Ribeiro Pontes, um catador de materiais recicláveis. O motivo foi um desentendimento porque a carroça da vítima teria encostado em seu automóvel.
Denis foi buscar uma balestra e disparou uma flecha contra o pescoço do trabalhador. Aldemir morreu.
Em 2021, foi condenado por homicídio qualificado, cometido por motivo fútil e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima.
A pena? Quatorze anos de prisão. Apenas dois acima do mínimo de 12 anos previsto para homicídio qualificado.
Preso desde setembro de 2016, Denis havia cumprido quase nove anos quando, em setembro de 2025, passou ao regime aberto. Não havia terminado de cumprir a pena. Continuava condenado, mas estava novamente nas ruas.
No último dia 30 de outubro, José Ricardo dos Santos, de 79 anos, caminhava com dificuldade por uma rua de Osasco, na Grande São Paulo.
