Em novembro de 1323, o papa João XXII declarou herética a tese de que Cristo e os apóstolos nada possuíam. A questão, até então legítima e disputada entre teólogos, deixou de ser debatida e passou a ser punida. O debate sobre a taxa de juros no Brasil chegou a esse ponto, e talvez esteja mais interditado do que estava a questão da pobreza do Nazareno. O assunto não poderia ser mais atual: o BC decide nesta quarta se baixa a taxa Selic em 0,25 ponto, para 13,5%, ou se mantém os 13,75%, o que os mercados já dão como certo.
Quem leu “O Nome da Rosa” (1980), de Umberto Eco, sabe do que falo. O Santo Inquisidor Bernardo Gui, personagem da vida real, diga-se, é brilhante. Acredita muito na Igreja e quase nada em Deus. Importa-lhe a verdade oficial. Do outro lado está Frei Guilherme de Baskerville, o franciscano que faz profissão de fé nos fatos. Ele chega a uma abadia com o noviço Adso para uma missão diplomática e, ali, é chamado a investigar uma série de crimes. Guilherme raciocina por indícios, exercita a dúvida, volta atrás… É por isso que descobre o que Gui nem se interessa em procurar.
NÃO FALTAM BRILHANTES
Assim é a discussão sobre juros. Não faltam economistas brilhantes para justificar a aberração. Até aí, bem… Que a expertise esteja a serviço do que considero um erro, isso não me surpreende nem me entristece. O problema é outro.
