Toda eleição desloca expectativas. Poucas deslocam o caixa. Entre o resultado das urnas e a primeira assembleia de acionistas, o que decide o destino de uma empresa não é o noticiário, e sim a combinação de quatro variáveis que nenhum governo altera por decreto: a capacidade de gerar caixa, o perfil da dívida, o poder de consumo e o objetivo de quem controla.
A pressão é mensurável. Em agosto de 2026, 9,3 milhões de CNPJs estavam inadimplentes, com R$ 244,4 bilhões em dívidas negativadas, segundo o Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian. No mesmo período, a Selic definida pelo Copom era de 13,75% ao ano. O custo do dinheiro segue alto e o acesso ao crédito, seletivo. Esse quadro explica por que temas de dívida e liquidez voltaram à pauta dos conselhos. Não comprova, por si só, uma onda de vendas de empresas depois da eleição. As transações que estamos anunciando já estavam em andamento e precificadas independentemente do resultado das eleições.
O pano de fundo do crescimento importa na mesma medida. O Relatório de Política Monetária de setembro do Banco Central projeta alta de 1,4% do PIB em 2027, abaixo dos 1,8% estimados para 2026. Em um cenário de expansão moderada, ganhar mercado fica mais difícil, e crescer por aquisição fica mais caro. A consequência prática é uma só: a empresa precisa distinguir um problema transitório de liquidez de um modelo de negócio que deixou de gerar retorno sobre o capital investido.
