A América Latina transformou-se em um imenso tabuleiro ideológico, no qual as peças se distribuem entre os campos da esquerda e da direita. O centro político, que durante décadas abrigou partidos moderados, coalizões pragmáticas e projetos de conciliação, perde espaço diante da radicalização dos discursos. Com diferenças de intensidade e peculiaridades nacionais, o continente parece caminhar sobre uma corda esticada entre dois polos. O equilíbrio tornou-se exceção. A confrontação, regra.
Suriname, Belize e República Dominicana podem ser ainda apontados como exemplos de sistemas políticos em que sobrevivem espaços de maior pragmatismo centrista. Mesmo nesses países, porém, as classificações ideológicas exigem cautela. No restante da região, a disputa entre forças de esquerda e direita ocupa o centro da cena, embora nem todos os governos possam ser acomodados rigorosamente nessas duas gavetas.
O fenômeno não nasceu ontem. Suas raízes mergulham na história de uma região marcada por desigualdades sociais, concentração de renda, instabilidade institucional, autoritarismo e promessas de redenção popular. Durante o século XX, a América Latina experimentou ditaduras militares, revoluções socialistas, experiências nacionalistas, governos liberais e movimentos populistas. Mudaram os protagonistas, mas permaneceu a dificuldade de construir consensos duradouros.
A chamada onda rosa, que ganhou força no início deste século, levou ao poder lideranças identificadas com a esquerda.
